MERCADO / 23 de Outubro 2017

Reunião Anual FMI - Banco Mundial


Na última semana, foi realizada em Washington a reunião do IMF/WB, como ocorre todos os anos no outono do hemisfério norte. Estiveram presentes algumas das principais autoridades econômicas e políticas tanto do mundo desenvolvido quanto do emergente, além de analistas políticos e econômicos de renome internacional.

Pela primeira vez desde a crise financeira de 2008/2009, o destaque do encontro deste ano foi o sentimento de relativo otimismo em relação ao comportamento da economia mundial. Houve consenso não apenas entre os analistas, mas também entre as autoridades presentes, de que o cenário está se tornando mais positivo, mais estável e previsível.

Em especial, devemos destacar o sentimento favorável em relação à Europa e à zona do Euro. Ao contrário do que se poderia esperar diante da saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit), a implementação de reformas estruturais importantes em diferentes países nos últimos anos, as vitórias dos partidos pró Europa na Holanda, França e Alemanha e o fato de que praticamente todos os países europeus entraram em trajetória de crescimento, ainda que relativamente lento, mas o suficiente para começar a mostrar queda do desemprego, gerou um ambiente de otimismo em relação aos desenvolvimentos futuros.

Ao contrário de reuniões anteriores, a discussão não se restringiu a formas de evitar a desintegração da zona do euro, mas em como solucionar os problemas ainda não resolvidos, como a união bancária, o compartilhamento de riscos financeiros, como implementar um orçamento fiscal unificado, etc. Em outras palavras, a atitude defensiva que vinha vigorando desde 2008/2009 foi substituída neste ano por uma atitude construtiva quanto às perspectivas futuras.

Outro tópico que ganhou relevância no encontro foi a discussão quanto à necessidade de “normalização” das políticas monetárias e de taxas de juros nos países desenvolvidos, principalmente Estados Unidos, Europa e Japão. Segundo alguns analistas, a manutenção de taxas de juros reais negativas e de grande volume de liquidez pelos bancos centrais destes países poderia levar os agentes à busca por retornos em ativos financeiros pouco seguros, criando as condições para bolhas de ativos que poderiam gerar instabilidades financeiras no futuro.

Entretanto, para alguns analistas e autoridades monetárias de diferentes países, a própria questão da necessidade de “normalização” destas políticas precisa ser analisada com cuidado. Segundo eles, o mundo viveu desde o início do século XXI mudanças estruturais importantes que podem ter feito com que as políticas monetárias e de juros executadas no passado não mais sejam indicadas para o mundo atual.

A entrada da China no mercado internacional e as inovações na área de tecnologia da informação geraram um choque de oferta positivo de grandes proporções e podem justificar taxas de juros bem mais baixa que no passado, sem gerar pressões inflacionárias de monta. Neste contexto, os modelos econométricos são incapazes de refletir corretamente o comportamento da economia e, portanto, antecipar as decisões de política monetária e de juros a serem seguidas pelos bancos centrais.

Para refletir este impasse, uma autoridade monetária européia sugeriu que, caso isto seja correto, o mundo estaria voando em ambiente de pouca visibilidade e sem instrumentos. Concluindo que, neste caso, o mais aconselhável seria, em lugar de viajar de avião, fazer a viagem de trem, mais lentamente e com menos risco.

Diante deste cenário benigno no mundo desenvolvido, o reflexo sobre o mundo emergente é também positivo. A expectativa é de um período de relativa tranquilidade no cenário econômico internacional, com taxas de juros reais ainda baixas por um período considerável de tempo, o que tenderia a favorecer fluxos de capital para os emergentes.

As avaliações sobre a economia brasileira foram, em geral, cautelosamente otimistas. Por um lado, os analistas reconhecem o grande esforço já feito pelo governo brasileiro no sentido de implementar um conjunto coerente de reformas pró-mercado e que já começam a fazer efeito sobre o crescimento, a queda da inflação e a redução das taxas de juros reais na economia.

Entretanto, dois fatores causam bastante desconforto. Primeiro, o forte desequilíbrio fiscal que ainda persiste, apesar da aprovação da Emenda Constitucional que criou o teto para o crescimento dos gastos públicos. O problema é que o sistema previdenciário brasileiro é incompatível com o teto e as turbulências políticas têm dificultado a reforma da previdência.

O segundo fator importante que afeta a disposição de investimento em ativos brasileiros é a eleição presidencial de 2018. Existe uma grande incerteza quanto ao resultado destas eleições e a possibilidade de volta a um cenário similar ao que prevaleceu no período 2006/2016 deixa os investidores bastante conservadores em relação a investimentos de mais longo prazo no país.

Nas discussões sobre política monetária no Brasil, a visão é que o país está passando por mudanças estruturais importantes, devido às reformas implementadas pelo atual governo, em especial a reforma trabalhista e a redução do crédito subsidiado com a troca da TJLP pela TLP para remunerar os empréstimos do BNDES. Neste contexto, avalia-se que a taxa de juros real neutra do país, ou seja, a taxa de juros real que não gera pressão inflacionária, está em trajetória de queda. Porém, admite-se ser impossível estimar qual o tamanho deste movimento e, portanto, qual a taxa neutra no momento. Como resultado, após um ano de fortes quedas da taxa básica de juros, as autoridades começam a indicar que as próximas decisões deverão ser mais conservadoras para evitar que a taxa neutra seja ultrapassada. Ou seja, devemos continuar a ver quedas na taxa SELIC, mas em níveis menores do que antes.

Finalmente, a grande incógnita no cenário mundial continua sendo o comportamento do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em especial, dois pontos podem ter efeitos bastante importantes sobre a economia mundial: a possibilidade de aprovação de uma reforma tributária que adote uma redução de impostos e o risco de protecionismo comercial por parte do governo americano.

Quanto à reforma tributária, a avaliação nas discussões foi de que será bastante difícil aprovar a proposta apresentada pelo presidente. Do lado republicano devido ao aumento projetado do déficit público dela decorrente. Do lado democrata, devido à redução de impostos para as empresas e os grupos de renda mais elevadas presentes na proposta.

No que se refere ao protecionismo comercial, a sensação generalizada é de total incerteza. Este é, a nosso ver, o grande risco do cenário internacional no momento pois um aumento do protecionismo nos Estados Unidos levaria a pressões inflacionárias mais fortes e, provavelmente, aumentos mais acelerados nas taxas de juros do país.

* Professor do Departamento de Economia da PUC/Rio e economista da Opus Investimentos